When:
2 September, 2021 @ 16:50 – 17:50
2021-09-02T16:50:00+01:00
2021-09-02T17:50:00+01:00


Criação Teatrão

 
9 de dezembro a 16 de janeiro
Oficina Municipal do Teatro
 
Espetáculo com dois episódios
 
Episódio 1: terça (19h), quinta e sábado (21h30)
Episódio 2: quarta (19h), sexta (21h30) e domingo (17h)
 
Maiores de 14 anos
 
Duração:
Episódio 1: 2h15 | Episódio 2: 1h45
 
Sessões acessíveis:
Interpretação em Língua Gestual Portuguesa: 28 e 29 dez
Audiodescrição: 15 e 16 jan
 
Preço Bilhetes:
10€ · bilhete normal
7€ · desconto parceiros protocolados
5€ · estudantes / seniores / profissionais das artes / pais das classes de teatro
4€ · grupo > 10 / alunos das classes do Teatrão / funcionários e alunos da ESEC / alunos do curso de Teatro do Colégio São Teotónio / colaboradores do Condomínio Vale das Flores
 
Bilhete dois episódios:
17,50€ (desconto apenas sobre o preço normal)
 
Informações:
239 714 013, 912 511 302
info@oteatrao.com

Da Família

 
Partindo da obra da família, de Valério Romão, construímos um espetáculo sobre as transformações atuais na estrutura e dinâmica das famílias. Com dramaturgia criada pelo autor, serão cinco dessas histórias que o TEATRÃO leva a cena a partir de 9 de dezembro, em duas partes e em dias distintos. Os cinco episódios familiares têm uma estrutura fabulista, mítica e fantástica, embora paradoxalmente quotidiana. Os episódios não estão propriamente localizados nesta ou naquela época, não fazem parte do passado embora também ali estejam, nem são contemporâneos, embora reconhecíveis no dia a dia. Sem ter qualquer pretensão ensaística ou formal, o tratamento melodramático, no melhor sentido da palavra, tem uma estrutura épica que, de forma inadvertida ou propositadamente, sabe-se lá, desassossega o recetor.
 
A partir deste desassossego, que logo à partida nos desequilibrou na aproximação à obra, queremos propor um ciclo de atividades que de alguma forma abordem assuntos que a obra nos suscita. Não para desvendarmos qualquer mistério, já que não é mister da arte deslindar charadas, mas socializar angústias.

 

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA

Dramaturgia: Valério Romão
Encenação: Marco Antonio Rodrigues
Assistência de Encenação: Mariana Pereira
Interpretação: Cláudia Carvalho, Isabel Craveiro, Hugo Inácio, João Santos, Margarida Sousa, Pedro Lamas e Sofia Coelho
Desenho de Luz: Jonathan Azevedo
Cenografia e Figurinos: Filipa Malva
Composição e direção musical: Victor Torpedo
Sonoplastia: Pedro Fonseca/Coletivo AC e Nuno Pompeu
Apoio Vocal: João Rui
Apoio ao movimento: Ana Figueiredo
Design gráfico: Paul Hardman
Fotografia: Carlos Gomes
Cabeleireiro: Carlos Gago (Ilídio Design)
Direção Técnica: Jonathan Azevedo
Direção de Cena: Afonso Abreu, Diogo Barbosa, Diogo Simões, David Meco e Mariana Pereira
Operação de Luz e Som: Jonathan Azevedo e Nuno Pompeu
Construção e Montagem de Cenário: José Baltazar, Josh Ford, Manuel Carvalho, Paul Yem, Tiago Antunes e Nuno Pereira
Costureiras: Albertina Vilela e Lídia Mota
Montagem Luz e Som: Diogo Figueiredo, Diogo Lobo, Jonathan Azevedo e Nuno Pompeu
Teasers Vídeo: Mário Canelas
Produção Executiva: Cátia Oliveira e Mariana Pereira
Comunicação: Margarida Sousa
Intérpretes Língua Gestual Portuguesa: Andreia Esteves, Luísa Gonçalves, Pedro Oliveira (profissionais) André Santos, Constança Figueiredo, Sofia Poupinha, Sofia Brandão, Sofia Flor (alunos Licenciatura LGP da ESEC);
Frente de casa: Ana Pereira, Ana Rita Mendes, Clara Alves, Filipe Gomes, Francisco Malva, Gabriela Alves, Gabriela Martins, Guilherme Curado, Hélder Carvalho, Inês Amaro, Iria Gonçalves, Laura Costa Leonor Piedade, Luís Nogueira, Margarida Quadros, Mariana Martins, Matilde Pereira, Raquel Pereira.
Audiodescrição: Anaísa Raquel – Produções

 

Dramaturgia

O grande desafio na criação desta peça foi o de transformar um objecto acabado – os contos de que partimos –, essencialmente narrativo, num discurso constituído por diálogos e acções. É inteiramente diferente partir para a escrita de uma peça quando aquilo que a alimenta é uma ideia; por mais complexa e imbricada que esta seja, o processo de a transformar implica encontrar uma forma para o que ainda não o tem. É uma tradução, é certo. Mas é um passo apenas.
 
Neste caso específico, já havia um texto narrativo a dar corpo à(s) ideia(s). A questão aqui era operar uma segunda transformação no texto de partida na tentativa de desbloquear o potencial dramático que nele residia. Tivemos longas conversas prévias – eu, Marco e a Isabel – sobre qual seria o melhor ponto arquimédico; aquele sobre o qual divisaríamos um dispositivo teatral capaz de dar coerência aquilo que, à partida, era um conjunto de textos sortidos de temática comum.
 
Para além de expurgar os textos de partida das suas componentes descritivas e narrativas – adequadas à criação de um conto com um arco narrativo, mas absolutamente inapropriadas para a criação de uma dramaturgia – tivemos também de pensar nas limitações inerentes ao dispositivo teatral: o espaço, o cenário, aquilo que somos capazes de recriar ou reproduzir e aquilo que teria de ser transformado ou adaptado ou mesmo deixado de fora. Procurámos ao longo de meses, em ensaios de improvisação, encontrar a melhor forma de traduzir os textos de partida numa peça que mantivesse as ideias que os presidem num formato obrigatoriamente diferente. Aos poucos – e tendo em conta a especificidade temática do livro de que partimos – chegámos a ideia de «condomínio». Um conjunto de apartamentos no mesmo edifício onde podemos perscrutar pelo buraco da fechadura a vida de cada uma das famílias presente nos contos.
 
Havia ainda a questão do tempo. O livro comporta onze textos. Confrontamo-nos rapidamente com um paradoxo: ou adaptávamos todos os textos correndo o risco de os tornar tão curtos que seriam ininteligíveis, ou mantínhamos a inteligibilidade e construíamos assim uma peça demasiado longa para sobreviver ao interesse do espectador. Optámos então por adaptar apenas cinco dos contos, aqueles pelos quais toda a equipa sentiu mais afinidade.
 
Todo o processo foi o de uma longa aprendizagem. Testamos a exequibilidade de muitas das ideias que tivemos; tentámos encontrar nos textos de base a linguagem dramática que serviria o propósito da peça sem os desvirtuar ou enfraquecer. Não sei se o conseguimos, logo veremos. Mas tem sido uma bela viagem.
 
Valério Romão

 

Director

“e a alma que quer conhecer-se a si mesma, tem que observar a própria alma” -Alcibíades, Platão
 
Desconfio que se sentar ao pé dessas histórias da família tenha algum parentesco próximo com a experiência das mil e uma noites em que a bela Sherazade noite após noite enreda e seduz o rei que a condenara a morte no amanhecer do próximo dia. Como é tido e sabido, Sherazade, arquétipo da inteligência, da intuição e da sagacidade femininas, adia sua pena ao interromper a história maravilhosa que narrara durante toda aquela jornada noturna, ao nascer do próximo dia, prometendo dar continuidade ao cair da noite. O rei, fascinado pela contação vai lhe concedendo mais um dia, até que ao cabo das mil e uma noites, mortalmente apaixonado, suspende a pena e a transforma em rainha.
 
Estas histórias que compõe esta obra do Valério Romão, tem essa propriedade, sem nenhum favor. Elas situam-se em um tempo mítico, nem cá, nem lá, o tempo que podemos chamar de tempo da experiência. As estruturas de que se utiliza são semelhantes às narrativas orais passadas para o papel: tem um sentido coletivo e funcionam como se atravessassem tempos e geografias, à maneira dos contos encantados, por isso atemporais e universais. Ao lê-las percebe-se e ouve-se claramente a voz do narrador.
 
Ao tempo em que são cotidianas e banais, facilmente reconhecíveis na nossa casa e no nosso dia a dia, carregam um elemento extraordinário e miraculoso, que, como nos contos encantados, protege as personagens e a nós espectadores da dureza dos acontecimentos que as envolvem. As famílias são gentes simples, o que necessariamente não significa humilde, mas gente comum que come e dorme, algumas com maior, outras com menor dificuldade. A presença das crianças também é uma mais valia de encantado na medida em que é comum ouvir um eco distante de suas vozes assumindo o protagonismo do olhar e do contar. Crianças são seres que justamente por estarem situadas fora da cadeia de produção tem propriedades atávicas muito além da doma do mundo das economias e das convenções adultas. Contam o que foi e o que poderá ter sido. Sem romantizá-las, estão ali em potência, agindo não necessariamente bem ou mal.
 
Talvez aqui fosse importante voltar ao caráter épico que o gênero narrativo contém: como nos contos encantados, eles têm uma função utilitária para a vida. Estão encharcados de uma certa religiosidade onde a compaixão pelo acontecido e pelo destino de suas personagens ultrapassa qualquer sentido moral. Por paradoxo, esta é a sua moralidade. Produzem questões que nos interrogam, colocando-nos, enquanto espectadores, num papel ativo e partícipe.
 
Todas essas histórias cá vividas, situam-se no interior das casas abrigando as mães, os pais, as crianças e o cão. As situações mudam, mas as personagens, quando nomeadas, o que nem sempre acontece, mantém os nomes de história para história, como se o patronímico fosse sempre o mesmo. O cão, por exemplo, é sempre o Nero.
 
Este patronímico é o mundo exterior e talvez isso fosse cedo referir, deixando livre à imaginação do espectador as condições adversas e perigosas que se encontram lá fora.
 
Poderíamos talvez fazer alguns paralelos com a contemporaneidade que pudessem e possam eventualmente justificar o sentido dessa encenação na atual conjuntura, no sentido em que ativem a nossa imaginação para outros mundos e formas melhores de viver. Isto tudo também talvez para investigarmos a potência avassaladora do patronímico.
Para isso, temos que voltar um pouco no tempo e na história:
 
“articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”. – Walter Benjamin
 
A frase da Margareth Thatcher quarenta anos atrás: “Não existe sociedade, existem indivíduos e as famílias,” é o padrão hegemônico de organização do estado hoje. É o bordão dos governos à direita ou à esquerda, a palavra de ordem que organiza o espaço publico.
 
Todo o estado de bem-estar social construído nos anos de ouro do pós-guerra e tão bem retratado no filme do Ken Loach, “O Espírito de 45”, vai sendo corroído às vezes mais lentamente, às vezes de forma mais assertiva e predatória ao longo desses quarenta anos.
 
Mesmo esses anos de ouro, também já eram, desde a segunda guerra presididos planetariamente por um acontecimento a acelerar o relógio do fim do mundo: a era atômica que desde então vivemos.
 
Nessa hora de citações e reminiscências é oportuno lembrar a frase de Camus, ao receber o prêmio Nobel em 57, traduzindo a função do artista, quem sabe como antevisão profética: “Cada geração se sente, sem dúvida, condenada a reformar o mundo. No entanto a minha sabe que não o reformará. Mas a sua tarefa é talvez ainda maior. Ela consiste em impedir que o mundo se desfaça.”
 
Nessa pequena digressão do assunto, como que a confirmar sem nenhum favor a filiação da obra (agora como um todo) do Valério Romão a esta tradição crítica, é necessário emparelhar também a fala esperançosa desse belíssimo poema da Sophia de Mello Breyner, a partir dos Cravos:
 
“Essa é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silencio
E livres habitamos a substância do tempo”.
E investindo de volta rumo ao mundo exterior, (já que para enfrentá-lo, tivemos por proteção, promover uma pequena pausa, enquanto nos investíamos das armaduras de Benjamin, Loach, Camus e Sophia) o que encontramos é, em geral um cenário desolador assombrado pelo fantasma da Thatcher: na exata dimensão da diminuição da arena publica, a descrença no poder da polis como exercício de cidadania e de desejos coletivos. A antiga sentença e palavra de ordem da Thatcher já diagnosticava não só a diminuição do papel social do estado e a sua completa submissão ao gerenciamento do capital internacional, como a precariedade do trabalho, o acirramento dos conflitos por ondas migratórias e guerras sistêmicas. As consequências daí advindas, hoje agravadas pela pandemia, com a consequente e necessária reclusão, constituem nosso backstage. E a paisagem perigosa em que se movem as famílias confinadas às suas quatro paredes.
 
À visão apocalíptica de um mundo, uma cidade, uma casa novinha em folha de quarenta anos e que ao se construir já é uma ruína, por sinal estrangeira, é preciso contrapor, porém, um sopro que também como reminiscência faz parte das lides populares desse território abençoado pela tradição revolucionária seja como jardim, seja como praça pública.
Felizmente o horizonte, embora cercado de farpas, ainda é uma reserva natural imensa de poesia.
 
Marco Antonio Rodrigues

 

Cenografia e Figurinos

Pensar a família no contexto de uma pandemia que se arrasta há quase dois anos é olhar para as consequências que uma tensão extraordinária exterior tem num agregado familiar. E é também perceber como é que ela funciona como o mais recente gatilho para a família contemporânea, desagregada e ferida há mais de 70 anos pelo capitalismo avançado que define todas as nossas vidas.
 
Não se trata de ignorar as razões emocionais das relações, mas antes de as colocar num contexto concreto e extremo que nos permite diagnosticar e analisar o que tem estado latente em todas as nossas vidas. Trata-se, para mim, de perceber o que não está presente em muitas famílias: solidariedade, empatia, diálogo, amor.
 
Com este objetivo, a cenografia tem o papel de isolar cada família, criando uma envolvente específica para cada história, suspendendo-as em plataformas de tamanho limitado. O seu exterior é território desconhecido e perigoso e os seus limites acabam bruscamente. Os elementos de cada família são forçados ou a enfrentar o exterior ou a confrontar-se. As suas escolhas são assim fisicamente amplificadas.
 
O tempo como o espaço é suspenso, e cada família está presa num momento particular da sua cronologia. Figurinos e interiores foram envelhecendo e a sua substituição é tão mais difícil quanto o é a vida da sua família. Formam um reflexo da tensão entre o interior e o exterior da família e são testemunha de memórias que se foram deteriorando pelas acções necessárias e a violência do seu quotidiano.
 
Filipa Malva

 

Composição Musical

Sinto-me sempre um novato, um refugiado acolhido no mundo do teatro.
 
Esse mundo é sempre será para mim um “oriente”, um universo que reconheço “negociar” e acima de tudo de “ver”, sentir e principalmente de ouvir – o que está por trás das letras, das emoções, das ações.
 
Sinto que sou parte da linha de montagem numa fábrica de sonhos, encarregado de criar um escape sonoro, ajudando a olear a engrenagem da produção.
 
Sinto-me parte dos sons desta casa, e é esta a beleza de fazer música para teatro, para esta peça “(da) Família”, pois é belo combater o medo, ter a coragem e arrogância de ultrapassar os obstáculos que se acumulam em tom de desafio.
 
Trabalho sempre na urgência, sempre sem rede. Neste caso, o processo começou por um brusco rompimento das estruturas imaginárias patentes na ideia rabiscada do autor da obra, num movimento de pequenos saltos diários a cada ensaio, avanços que por vezes se tornavam retrocessos à medida que mais texto ia chegando.
 
Vibro com esta constante mudança de texto, de ideias, de ritmo, que requerem uma constante adaptação, novos layers e cores para a criação musical. Vibro com todo o processo criativo que suporta o estudo teatral. Vibro com o modo como tudo se encaixa na perfeição: as letras, os sons, as reflexões dos atores, as luzes, a música. Tudo é lógico neste puzzle e é aí que sabemos que estamos em sintonia. A música é apenas parte desta orquestra sintonizada sob o esforço conjunto.
 
Para esta peça, decidi começar do zero, investigar, experimentar, entender a linguagem, ouvir todos os intervenientes. Criei música de raiz, em estado bruto. Usar o som que se vislumbra nas entrelinhas, usar a emoção como arma e deixar as partículas sonoras invadir os outros espaços das cenas. Trabalhei em ideias que foram inicialmente abandonadas, arriscadas, que brotaram da observação do momento, pisando a urgência.
 
Importo-me com a invasão do tempo que urge. Ainda ecoam nos meus tímpanos as belas palavras do fabuloso Marco Rodrigues, o encenador, durante os ensaios: “Vai dar merda, Vamos para a frente. Eu sei que é muita coisa, errou, mas não há problema. Hei, vamos continuar”. Desta maneira, a este ritmo, consigo trabalhar, com esta urgência, com este ímpeto. É simples o segredo.

 
Victor Torpedo