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Teatrão

© 2026 Teatrão – Companhia de Teatro, Coimbra

03.07.26

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Tartufo, de Molière

Para a sua 110.ª produção, o Teatrão foi buscar o texto seiscentista mais afiado de Molière. Tartufo, o falso devoto que se infiltra no seio de uma família burguesa em ascensão é a metáfora sobre os jogos de poder e a hipocrisia que governa o mundo. Trabalhando a partir de uma popular tradução de Feliciano de Castilho, de 1903, o Teatrão desafiará os nossos públicos a uma hilariante aproximação ao tempo atual, onde tantos Tartufos às claras nos dão a sensação de todos estarmos de olhos vendados.

Orgon, o chefe de uma família burguesa, acolhe em sua casa o pedinte Tartufo, que conhece na igreja. Esta decisão vai transformar por completo o quotidiano da família que percebe as manipulações de Tartufo e tenta fazer ver a Orgon que as intenções do novo hóspede não são as melhores. A preocupação com as aparências e o crescimento dos negócios são agora o foco de Orgon, que proíbe o contacto social de todos, desmarca o casamento já acordado do filho e não percebe as tentativas de sedução do suposto homem de fé à sua jovem esposa. Filho, cunhado, esposa e criada elaboram um plano para desmascarar o intrujão.

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Fotografias de ensaio

© Paulo Abrantes

Sobre esta adaptação de Tartufo

A primeira versão deste texto estreou a 12 de maio de 1664. Tinha três atos e era intitulada Le Tartuffe ou l’Hypocrite. Por ridicularizar os religiosos, a peça foi proibida no dia seguinte. Só em 1669 o texto voltou à cena, numa versão com cinco atos e o título Le Tartuffe ou l’Imposteur. Esta segunda versão é a mais conhecida e encenada. Da primeira não se conhecia paradeiro, até que em 2010 um académico francês, Georges Forestier, com a cumplicidade de uma professora de liceu, Isabelle Grellet, a reconstituíram para uma montagem escolar. Foi essa versão que a Comédie Française montou em 2022, com encenação de Ivo van Hove. Esse trabalho é um dos pilares em que assenta esta adaptação. As vantagens desta nova versão são, por um lado, a simplicidade do enredo e, por outro, o foco na hipocrisia do devoto Tartufo. O outro pilar desta adaptação é a tradução de 1870 feita por José Feliciano de Castilho. Existem excelentes traduções do Tartufo, nomeadamente a de Regina Guimarães e a de Manual João Gomes. A tradução de Castilho tem duas vantagens: é feita em verso e rima, como o texto original, o que valoriza o ritmo e a musicalidade da peça; e as personagens usam um português relativamente antiquado, que faz as figuras soarem a falso. A adaptação distancia-se assim da imagem da sociedade contemporânea, em direção a uma realidade artificial, que não é daqui nem de agora, mas de sempre. Esta teatralidade mente com todos os dentes.

Atividades paralelas
Biografia de Molière

Molière, pseudónimo de Jean-Baptiste Poquelin, nasceu em Paris, no dia 15 de janeiro de 1622 e foi um dos dramaturgos franceses mais importantes do século XVII.

A sua jornada pelo mundo do teatro oficializou-se em 1643 com a fundação da sua companhia de teatro L’Illustre Théâtre, sendo sol de pouca dura, pois entrou em bancarrota com apenas dois anos no ativo. Devido às dívidas contraídas pelo projeto, Molière é preso. Após este fracasso inicial, entrou na companhia de Charles Dufresne, na qual se tornou um comediante itinerante. Em 1658 regressa a Paris, onde voltou a fazer algumas apresentações bem-sucedidas; foi também nesta altura que se tornou membro da Troupe de Monsieur. Com a ajuda do seu novo mecenas (o irmão do rei), juntou-se a uma companhia local italiana dedicada à comédia dell’arte e, assim estabeleceu-se no teatro Petit-Bourbon, no qual estreou a peça “Les Précieuses Ridicules”, até hoje considerada uma das suas obras-primas, apesar de ter causado bastante controvérsia – reação que viria a ser um presságio para futuros trabalhos de Molière. Em 1662, mudou-se para o Théâtre du Palais-Royal, palco das maiores polémicas da carreira do dramaturgo, e foi nesta época que escreveu “Tartufo”.

O dia da sua morte tornou-se num dos momentos mais enigmáticos da sua história. No dia 17 de janeiro de 1673, “morre” em palco enquanto representava o papel principal da sua última peça, “O doente imaginário”. A vida de Molière terminou, assim, da mesma forma que imaginava as sua obras: com uma ironia que só ele nos poderia proporcionar, até de forma não intencional.